blog do Hudson


01/05/2008 12:37

O ACORDÃO DE BH

Não me causou espécie a fúria e a coragem do torcida do Clube Atlético Mineiro ao tentar invadir a sede do clube após a vexatória partida contra o arqui-rival Cruzeiro no último domingo. No entanto, fico pensando, o que leva a atos desse tipo quando se trata de futebol – o que para muitos é uma religião – se comparado a passividade absoluta para outros temas. Agora mesmo está sendo costurado, na mesmíssima cidade, um acordão entre duas forças que durante anos enganaram a população dizendo-se dispares. A energia desprendida na manifestação e o tumultuo causado em frente à sede do CAM ,seria mais bem aproveitada caso tivesse ocorrido em frente ao Palácio da Liberdade, ao Palácio das Mangabeiras ou ao Paço Municipal e naturalmente, com outros objetivos.

Está sendo construído em Minas um enorme e forte palanque para 2010, como de resto em quase todo o Brasil, todavia há aqui uma singularidade e peculiaridade pertinentes ao estilo mineiro de fazer política. Ou seja, umas personagens estão usando o nome do PT e do Presidente Lula, a fim de costurarem uma aliança de proporções dantescas, entretanto, muito provavelmente nem o PT, nem Lula poderão desfrutar tal acordo.

Fernando Pimentel – atual prefeito de Belo Horizonte – não é nenhum apedeuta e tem consciência do quadro político que se desenrola para 2010 no plano nacional. Sabe que se optar por sair candidato ao governo de Minas só com apoio do PT, concorrendo contra Eduardo Azeredo e/ou Hélio Costa, com um dos dois fazendo dobradinha com Aécio Neves para presidente, suas chances diminuem consideravelmente. Já pelo lado de Aécio, é importante tirar do PT a prefeitura da capital mineira e garantir um homem de confiança no cargo. A aliança entre ambos – Pimentel e Aécio – não é uma aliança entre partidos, antes é uma aliança entre personagens mirando 2010. Aécio precisa mostrar ao Brasil que é um político de consenso, capaz de conviver com as mais variadas forças político-partidárias – está aí um mote para a campanha –, em contraste ao governo Lula e as sempre grandes dificuldades que este encontra no Congresso, e à Serra, capaz de tornar antigos aliados em inimigos figadais. Para tanto um palanque no seu estado natal com forças ecléticas – digamos assim –que atravessem o espectro político institucional desde os Demos até partidários oriundos do PT, é quase imprescindível para suas ambições.

Aécio e Pimentel têm buscado maximizar forças e aglutinar o maior número possível de aliados com o intuito de se prepararem para um embate ainda maior em seus respectivos partidos – Aécio versus Serra e Pimentel versus Patrus. Ambos sabem que seu futuro político passa pelo mesmo caminho que outras personagens de força em suas agremiações e podem portanto, saírem bastante combalidos desse embate. No mais em última instancia com os dois sendo pai e mãe desse acordão/aberração – parece mais cruza entre Curupira e Mula Sem Cabeça – terão cacife de sobra para levar seus projetos pessoais para debaixo de outra bandeira partidária. Pimentel no PSB de Ciro. Aécio no PMDB – por incrível que possa parecer o tucano é o único nome com o qual o PMDB se disporia a disputar a presidência da Republica como cabeça-de-chapa.

A insistência do PT belo-horizontino em levar adiante tamanha insanidade política – entregar de bandeja uma prefeitura que controla desde 1992 – só pode se dar ao fato de Pimentel não ter compromisso algum com o partido que o elegeu e do qual faz parte há anos. O compromisso de Pimentel é com Aécio Neves. Assim se elucida o caráter oportunista do acordão. Não que o PT daqui de Minas seja exemplo de partido de esquerda ou de ética, ou que no plano nacional haja muitas diferenças entre PT e PSDB – aliás o PT caminha a passos largos de encontro com a mesma linha política dos tucanos – mas essa aliança é maquiavélica no sentido de entregar o estado inteiro as mãos de um único grupo político. Caso o Diretório Nacional do PT aprove o hediondo acórdão – coisa que a Executiva Nacional proibiu – o PT estará dando munição ao inimigo. Algumas pessoas de peso dentro do PT, já tiveram o correto discernimento sobre o fato.

Pimentel esperará pela definição do PSDB sobre quem será o seu presidenciável, Serra ou Aécio e a definição petista sobre uma candidatura própria ou não – caso o partido opte pelo não, Pimentel será articulador de uma aliança com o neto de Tancredo. Na realidade parece cada vez mais difícil o PT aceitar abrir mão da cabeça-de-chapa, por motivos históricos e óbvios.

Imaginemos a seguinte conjuntura em 2010: a)Lula com taxa de aprovação enorme, sendo o cabo eleitoral mais disputado e tendo chances de fazer seu sucessor. Ademais o partido sempre foi avesso a coligações, sobretudo as quais não é hegemônico e soa ilógico um partido abrir mão do poder em detrimento de outro em tal momento histórico. b) Serra logra-se vitorioso na disputa interna do PSDB e Aécio busca os ares do PMDB. De quebra leva seu novo partido a uma coligação com PSB. Ciro Gomes é o vice na chapa. Por que raios Pimentel se manteria no PT? A ida de Pimentel para um partido da base do governo Lula, entretanto que seja maleável a ponto de em 2010 estar de braços dados com Aécio, faz muito sentido. Pimentel fará um jogo de paciência, mas no final abandonará seus antigos correligionários – não sem antes levar alguns a tira-colo – e vai para o PSB. Candidata-se ao Palácio da Liberdade e sela aliança com Aécio. O ex-governador tem um palanque do jeito que sonhou. O ex-prefeito ganha cacife e notoriedade no interior do estado – coisa que hoje não possuí – e o PT fica chupando dedo.

Agora eu pergunto: a quem interessa o acordão que esta sendo tramado para a prefeitura de BH? Ao PT? Ao PSDB? Ou apenas aos projetos pessoais da dupla Aécio e Pimentel.

A união de forças entre os dois mais importantes nomes da política mineira, embora legítimo, é a caricatura das limitações do representativismo liberal-burguês, pois ao abandonar um projeto programático e se lançarem de forma personalista na vida pública, exacerbam a incapacidade dos partidos políticos em se sobrepor aos projetos e veleidades pessoais.

Aécio será o verdugo do que resta de dignidade ao PT mineiro, enquanto Pimentel será o Joaquim Silvério que levará sua ala para fora do partido, deixando o governador com uma hegemonia perigosa no estado. Inexistirá em Minas correlação de forças entre o governo estadual e oposição – como se já não bastasse sermos um estado já muito conservador por história e onde a imprensa é amordaçada e intimidada, ainda ficaremos órfãos de debates populares, pois o acórdão em BH tenderá a se espalhar como um metástase por outros municípios, principalmente da zona metropolitana. É de suma importância fazer da prefeitura de BH um campo de resistência a políticas hegemônicas, sendo um diferencial relativo ao restante do estado.

A velhacaria do acordão se exacerba ainda mais com o exaspero do PSB nas figuras de Ciro Gomes e do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, no momento em que intimidam a Executiva Nacional do PT a aprovar o acordão. O testa-de-ferro escolhido por Aécio e Pimentel para a cabeça-de-chapa na coligação, é o obscuro secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Marcio Lacerda, filiado ao PSB.

Entretanto ao imporem o nome de Lacerda, se esquecem Ciro e Eduardo Campos, que no Congresso Nacional foi firmado um compromisso entre PSB, PCdoB e PDT (o chamado bloquinho) de caminharem juntos nas duas casas do Legislativo e nessas eleições municipais. Como pode o PSB cobrar “desprendimento do PT”, sendo que seus aliados mais próximos (PDT e PC do B) possuem pré-candidatos à mesma prefeitura, respectivamente Sérgio Miranda e Jô Moraes.

Segundo o ex-governador do Ceará, ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional e candidato à presidência da Republica em 1998 e 2002, quem está contra a aliança PT/PSDB/PSB é a espúria da política mineira. Forma bastante democrática de dialogar essa encontrada por Ciro. Talvez o neo-coronel, pense que os apoiadores de Lacerda sejam cidadãos tal como os antigos gregos ao passo que os opositores são escravos e estrangeiros sem direto a participação na Assembléia.


enviada por hudson






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