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07/05/2008 16:51
INVESTMENT GRADE
Infelizmente mais uma vez mostra-se latente a opção do governo de Luis Inácio Lula da Silva rente ao capital externo em detrimento de políticas públicas transformadoras e revolucionárias. Fato exacerbado com o anúncio por parte de uma importante agência de investimentos, de que o Brasil, enfim, galgou ao posto de investment grade, e o júbilo e regozijo com que autoridades tanto do governo quanto da oposição de direita-farisaica, festejaram tal acontecimento. Como se com tal anúncio o Brasil passasse a integrar o seleto grupo de países sérios como afirmou o nosso presidente.
O episódio seria cômico, não fosse trágico. Primeiro porque quem recomendou o Brasil como porto seguro para investimentos foi a Standart & Poors. A mesma agência recomendava bancos estadunidenses que mais tarde estariam no olho do ciclone da crise do sistema imobiliário na América do Norte. Segundo, a principal explicação dada pela Standart & Poors para elevar o Brasil a investment grade e isso consta no seu relatório se dá ao fato do país ter mantido por mais de uma década a mesma linha de política macro-econômica. Equivale a dizer que o Governo Lula segue os mesmos passos que seu antecessor, o governo FFHH talvez apenas seja mais competente, ao contrario do que prega os tucanos. Terceiro, quando um presidente, oriundo dos movimentos populares, eleito com o desafio de tirar o país de séculos de exploração e espoliação, afirma categoricamente que seu sonho perseguido era ver o Brasil com a chancela de investment grade, fica claro porque o cenário de disputa partidária caminha para aquilo que sobejamente o cientista político Carlos Nelson Coutinho, conceitua de americanização da política brasileira. Ou seja, temos a opção entre duas formas de gestão política e econômica similares.
O preço que o Brasil pagou, e continua pagando, para atingir tal reconhecimento internacional é um fardo pesado demais para uma sociedade que em pleno século XXI luta pra erradicar o analfabetismo. Uma sociedade que na contra-mão de quase todas as outras no mundo inclusive as de capitalismo mais avançado ainda não foi capaz de discutir de forma sistemática uma reforma agrária. Milhões de brasileiros relegados à linha da pobreza ou da miséria. Sucateamento do estado. Avanço do narcotráfico como poder paralelo em várias comunidades. Degradação das relações de trabalho e redução acentuada de direitos trabalhistas e previdenciários.
Tudo isso por conta do famigerado superávit primário, pagamento da dívida externa, liberdade de ir e vir do capital especulativo e a farsa da valorização do real. Quebra de empresas nacionais, ou a simples incorporação dessas por transnacionais no inicio da década de 1990, 2/3 das quinhentas maiores empresas brasileiras eram nacionais (privadas ou estatais), situação exatamente inversa nessa década.
O Brasil do governo Lula honra seus compromissos externos ao passo que se esquece dos compromissos internos.
Concomitante à avaliação da Standart & Poors, a Unesco divulga relatório que coloca o Brasil na 79º posição dentre os países que estão cumprindo as metas da educação básica, com universalização do ensino primário, alfabetização de adultos, paridade entre sexos e qualidade da educação. No mesmo ranking, todos os países latino-americanos "não confiáveis" ao "investiment grade" aparecem na nossa frente. Assim, Cuba aparece em 21º, a Argentina em 27º, a Venezuela em 64º, o Equador em 71º e a Bolívia em 72º.
A horrenda e cabulosa comemoração pela extinção do risco Brasil ainda que por apenas uma única agência internacional por parte de governo, Banco Central autônomo, oposição de direita, grande imprensa na figura do PIG e parte da esquerda, apenas ressalta e põe a luz do dia, o que Aléxis de Tocqueville havia predito no inicio do século XIX e Norberto Bobbio reafirma ainda hoje, a democracia liberal nos moldes como está, impõe limites por si só o que eles omitem por serem fieis seguidores da doutrina liberal, é justamente que esse paradigma é uma abstração burguesa que se concretiza ao exprimir seu caráter de dominação de classe.
Ainda poderíamos esperar que tal recomendação por mais que deixasse exposta a mazela que subjuga os trabalhadores viesse acompanhada de medidas como restrição ao envio de capital estrangeiro, incentivo ao capital produtivo e maior controle sobre os capitais meramente especulativos, queda da taxa de juros,política cambial mais responsável, etc; ao menos denotaria um passo positivo do atual governo em defesa dos reais interesses nacionais. Entretanto parece ter surtido efeito oposto. Com a elevação do Brasil à categoria de investment grade, passamos a propagandear que somos um porto seguro para a especulação e gana dos mega-investidores internacionais, os mesmos que num passado não tão distante levaram a bancarrota México, Rússia e Tigres Asiáticos entre outros.
Triste é constatar mais uma vez a inexistência de debates sérios sobre o futuro do Brasil. Apenas questões pontuais ou disputas partidárias quando não pessoais levantam algum debate. Isso é demasiadamente pouco para uma sociedade ainda em construção e cansada de ser explorada.
Como definiu Antonio Gramsci, há uma distinção entre a grande política e pequena política. A grande política, dizia ele, é aquela que lida com estruturas, põe em discussão a ordem social, tanto no sentido de transformá-la, como de conservá-la. A pequena política é a do corredor, da picuinha, da intriga Vivemos na era do neoliberalismo uma crise da grande política. Um dos principais alvos ideológicos do neoliberalismo é reduzir a política à sua dimensão de pequena política. Estamos cansados de ouvir coisas como o fim da política ideológica, o fim da utopia, o que na verdade significa tratar a política como uma coisa que não coloque em discussão as estruturas.
E assim vivemos a nossa mediocridade política de cada dia.
enviada por hudson
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