blog do Hudson


22/04/2008 15:43

ABRIL VERMELHO

Enquanto o MST mobiliza manifestantes no Brasil por mais uma jornada de lutas e reivindicações legítimas, nossa elite nunca preocupada com os verdadeiros rumos do Brasil e sim única e exclusivamente pensando em si própria e seus bens materiais, volta a chamar seus “cães de guarda” para ladrarem contra a “desordem” perpetrada por um movimento social organizado, popular e democrático.

A democracia na boca de nossa elite dominante não passa de termo gasto e surrado, usado para defender seus interesses de classe. O direito – ou obrigação – de ouvir os dois lados de uma contenda é esquecido pelos “cães de guarda” Arnaldo Jabour, William Waack, William Bonner, Boris Casoy, Jô Soares, Carlos Nascimento e outros congêneres para mostrar e veicular apenas um dos lados. Claro que esse lado é a das grandes empresas transnacionais aqui instaladas em detrimento da luta de cidadãos brasileiros – não é chauvinismo de minha parte, mas sim a constatação didática da disputa capital versus trabalho.

O MST sempre procurou colocar em pauta atos recentes ignorados pela elite dominante e conscientizar a sociedade sobre os rumos que o neoliberalismo tem imposto ao Brasil.

No dia 8 de março de 2006 trabalhadoras sem-terra ligadas ao MST e a Via Campesina invadiram instalações da Aracruz Celulose no Rio Grande do Sul e destruíram mudas de eucalipto transgênico. As grandes plantações de eucalipto, ainda sem a modificação genética já são conhecidas pelo nada auspicioso apelido de “deserto verde”, imaginemos então o que é capaz após a modificação buscando robustecer a planta, acelerando seu crescimento e conseqüentemente consumindo mais água. A ação das camponesas não deixava de ser também uma resposta solidária a população norte-capixaba contra as arbitrariedades cometidas pela mesma Aracruz. A empresa transnacional responsável pelo eucalipto transgênico, também ocupou uma área no estado do Espírito Santo, originalmente demarcada como território indígena e reiteradamente tem difamado as populações indígenas da região. Esse fato deu iniciou uma disputa judicial entre a citada transnacional e a Funai. Entretanto a mídia não deu nenhuma palavra sobre esse tema, assim como sobre o deserto verde.

Mas o destaque da mídia naquele dia ficou por conta da “baderna” promovida pelo MST. Baderna pura e simples, sem nenhum objetivo a não o de espalhar o terror e amedrontar empresas que queiram investir no Brasil. Obvio que entre as pessoas mais politizadas começou-se a falar sobre a tragédia que a Aracruz representa para o Brasil e um segmento da sociedade, embora pequeno, percebeu os danos causados por essa empresa para o meio ambiente e para as populações arredores, além do desprezo tanto para com os povos originários quanto pela justiça brasileira – no entender da Aracruz a justiça só é boa, serve e deve ser obedecida se estiver concomitante com os seus interesses. Para desfazer a imagem negativa a transnacional veiculou durante a Copa do Mundo – o evento mais alienante que a Rede Globo e seus concorrentes (na verdade macacos de imitação) já conseguiram produzir – uma peça publicitária milionária pagando cachês elevados a Pelé, Seu Jorge, Daiane dos Santos, Bernardinho entre outros, mostrando bem a preocupação, ou falta dela, dessas “celebridades” para com a sociedade. Ou talvez tenha simplesmente comprado tal “preocupação”.

Muito antes disso em Eldorado do Carajás em 10 de abril de 1996, dezenove camponeses trabalhadores sem terra foram trucidados pela policia militar enquanto outros 69 eram mutilados e mais de uma centena feridos, com o consentimento do governador paraense Almir Gabriel (PSDB) – que à época tinha a função de privatizar o estado e defender os interesses do capital internacional – e a omissão dos grandes meios de comunicação que tratou a tragédia como “confronto entre manifestantes e Policia Militar”.

No livro “O massacre – Eldorado do Carajás uma história de impunidade”, o jornalista Eric Nepomuceno destaca não haver nenhuma assimetria entre manifestantes armados de pedaços de pau, facas e enxadas e a força policial para que se pudesse chamar de confronto, "Isso é uma aberração. Não houve confronto. Os sem-terra morreram imobilizados covardemente. Sem possibilidade de defesa, tocaiados".

Passados 12 anos apenas 2 dos 144 incriminados foram condenados pela justiça e ainda assim aguardam em liberdade o recurso da sentença.

Agora, nesse mês uma jornada nacional – Abril Vermelho – relembra o massacre de Eldorado do Carajás pedindo o fim da impunidade além de por em pautas outras reivindicações.

O MST obstruiu os trilhos da Estrada de Ferro Carajás, em Parauapebas (PA), em uma série de protestos para denunciar a exploração da empresa mineradora Vale. Essa empresa tem explorado e sujeitado a más condições de trabalho seus operários, além de degradar o meio-ambiente. Na justiça paraense corre processo visando reverter o esbulho que foi o leilão da Vale do Rio Doce em 1995, então uma empresa estatal – ou seja patrimônio do povo brasileiro – por escandalosos US$3,3 bi – só o lucro da empresa no primeiro semestre de 2007 foi de US$3,5 bi –. Ademais, a empresa conta com forte capital externo e controla uma quantidade enorme de jazidas dos mais diversos minérios praticamente monopolizando a extração de alguns e explora o solo nacional em flagrante desencontro com os princípios de um país que se diz soberano. Um plebiscito marcado por diversos movimentos sociais no ano passado mostrou a disposição da maioria dos participantes em anular o leilão de privatização da Vale do rio Doce.


Outras mobilizações se realizam pelo país afora com o intuito de exigir o cumprimento de promessas por parte do governo federal; maior apoio e crédito aos assentamentos, avanço da reforma agrária que se encontra estacionada com muito poucas famílias senda assentadas nos últimos anos, mudanças na política econômica, maior prestígio a agricultura familiar e melhores condições para a pequena e média propriedade que nos últimas décadas vem sofrendo com o crescimento do agronegócio e a concentração fundiária. Concentração fundiária que por sua vez aumenta os índices de violência no campo onde a maior vítima é o trabalhador rural.

Reivindicações normais em qualquer democracia do mundo, mas aqui no Brasil toma ares de ato terrorista. Os jornalões e as redes de televisão fazem do MST uma aberração tratando-o como uma patologia de país terceiro-mundista. Criminaliza suas ações e sataniza seus dirigentes, em especial o coordenador nacional João Pedro Stedile. O que aparece nas telas Jornal Nacional são um bando de baderneiros vociferando como loucos contra tudo e contra todos.

Ao ver a história dos 24 anos de lutas do MST, temos a certeza da existência no Brasil dum movimento social-democrático-popular lutando contra todas as adversidades para construir uma nova sociedade. E o mais importante, é a prova que o proletariado tanto do campo quanto da cidade, pode se unir em torno de uma causa comum sem se enveredar pelo pragmatismo.

É um alento saber que existe um movimento que age de maneira efusiva contra o pensamento hegemônico num momento em que se trava a luta entre socialismo e barbárie.

O MST hoje condensa varias reivindicações populares e não só a luta pela reforma agrária ou a denuncia da falta de incentivo à pequena ou média propriedade rural, como também a fragilidade dos poderes públicos perante o poder econômico, a desigualdade social que opõe opulência à miséria, a omissão do estado diante da violência cometida contra grupos mais fracos – ou seja a maioria da população – , o acesso restrito a justiça, saúde e educação, são de importância extrema e por isso mesmo o movimento seria saudado em qualquer sociedade democrática de fato. No entanto, enquanto vivermos sobre o totalitarismo do sistema capitalista isso será mostrar a própria chaga, portanto nessa ótica, é inadmissível tal movimento, ou mesmo a existência de tal debate.

enviada por hudson






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