blog do Hudson


04/03/2008 20:15

A QUEM INTERESSA UM CONFLITO NA AMERICA DO SUL?

A invasão do território equatoriano por tropas colombianas não só violou a soberania deste país como pôs fim a série de negociações com as FARC. Também traz de volta o conflito entre governo colombiano e Forças Revolucionárias para o terreno militar, onde já se provou que nenhuma das duas partes obterá sucesso a curto ou médio prazo.

Tudo isso no exato momento em que as FARC, por intermédio do presidente venezuelano Hugo Chávez e da senadora da oposição colombiana Piedad Córdoba, negociaram e lograram êxito para a libertação de vários reféns. Sendo que os últimos foram libertados na sexta-feira, 29 de fevereiro, e o atentado cometido pelo exército colombiano que resultou na morte do número 2 das FARC, Raúl Reyes, ocorreu no sábado, 1° de março. Reyes era o responsável pelas negociações em andamento.

O que motivaria o presidente colombiano Álvaro Uribe ao gesto tão imaturo, infame e de tão grande repercussão mundial, justamente no momento em que as negociações surtiam efeito?

Uribe se sente acuado e desmoralizado frente ao sucesso das negociações. Nunca se mostrou afeito a nenhum tipo de diálogo com as Forças Revolucionarias, enquanto por outro lado apóia ostensivamente os movimentos paramilitares de direita que se proliferaram em seu governo. As negociações levados à cabo por desafetos seus como a oposição política no congresso e por Chávez – crítico contumaz de seu alinhamento com os EE.UU. transformando a Colômbia numa enorme base ianque em plena Amazônia – e a contestação por parte da população sobre os objetivos alcançados pelo nefasto Plano Colômbia – plano concebido e dirigido pelo Departamento de Estado norte-americano – tendem a atrapalhar seus planos futuros.

Embora Uribe tenha se reelegido recentemente, após sua reeleição viu os partidos opositores levarem as prefeituras das principais cidades de país: Bogotá, Medellín e Cali. Portanto para que um projeto de terceiro mandato – projeto negado por ele, mas que à cada dia encontra mais ressonância junto aos seus aliados e visto com bons olhos por Washington – pudesse de fato vingar, antes seria necessário respaldo político para mudar a Constituição colombiana. Nada melhor para obter esse respaldo e concorrer novamente à presidência do que unir todo o povo em torno de um grande objetivo comum. Esse grande objetivo teria como pilar o discurso de que a segurança nacional está ameaçada por agentes externos – esse filme é velho !!! –. Ou seja uma guerra contra Equador e/ou Venezuela seria um ótimo pretexto.

Já na parte setentrional do continente, o cawboy fantasiado de presidente George W. Bush, passou seus oito anos de mandato vendo movimentos anti-imperialistas pipocarem na América Latina e governantes não alinhados à Casa Branca se elegeram com um discurso democrático-popular. Pior cometeram o sacrilégio de colocar em prática políticas que confrontam com os anos de neoliberalismo ao qual seu povo foi condenado, além de medidas nacionalistas visando proteger sua soberania. Rafael Correa – presidente equatoriano empossado no inicio do ano passado – já afirmou que não renovará a cessão da base de Manta para os EE.UU. Essa base é considerada estratégica pelo Pentagono, pois de lá partem aviões em missão de “reconhecimento”, buscando áreas de refino de coca.

Embora a América Latina não seja tema central na atual campanha à presidência norte-americana, é de fato um dos vários pontos fracos da política internacional do cawboy. Hillary Clinton já se disse “preocupada” com o que chamou de “retrocesso da democracia na América Latina”.

Somemos todos esses fatores e façamos a seguinte conjectura:

O governo Uribe agride a soberania territorial do Equador. A tensão é gerada no subcontinente sul-americano. Até o mundo mineral sabe que Uribe não faria isso sem aval da Casa Branca. Mais, a Colômbia é hoje o país de maior poderio bélico na região, justamente por conta do “Plano Colômbia”. Nenhum governo sul-americano, que realmente defenda o integridade de seu território e a soberania de seu povo, pode aceitar o ultraje cometido por aquele a quem Chávez já alcunhou de peão do Império. Desde a posse de Correa, que Equador e Venezuela dispõem de uma política de integração e cooperação mútua. Portanto não é de se estranhar que já no domingo, 2 de março, apenas um dia após o violação do território equatoriano por tropas colombianas, a Venezuela, seguindo os passos do Equador, retirasse seu embaixador de Bogotá e mobilizasse tropas na fronteira com a Colômbia.

Uribe, além de seus projetos políticos pessoais, com certeza está sendo usado por Washington para deflagrar um conflito na região. Um conflito financiado pelo Uncle Sam com o intuito claro de derrubar governos democráticos e populares.

Esse conflito também cairia como uma luva para a campanha republicana. Embora hoje a mídia tupiniquim dê como favas contadas o retorno dos democratas ao Salão Oval, as últimas pesquisas nacionais de opinião dentro dos EE.UU. nos mostram que poderemos ter um pleito bastante equilibrado, por mais cansado que os estadunidenses estejam do governo Bush. É verdade que os democratas estão digladiando entre si, enquanto os republicanos ainda não ratificaram o nome de McCain por questões formais e assim o partido de Bush saia na frente. Mas realmente essa eleição tem todos os ingredientes para ser bastante disputada – como já foram as de 2000 e 2004 –. Por mais "liberal" que o senador do Arizona possa ser para os padrões dos republicanos, dificilmente extirpará de Washington os falcões de plumagem mais densa. O conflito no quintal do Uncle Sam serviria entre outras coisas para recrudescer a visão de que a América Latina – e sobretudo a América do Sul – é uma área de tensão e de agitações anti-democráticas. Para colaborar mais ainda com essa visão a Bolívia é hoje um barril de pólvora prestes a entrar em guerra civil - com a mãozinha da C.I.A. claro.

Para o eleitor médio estadunidense os democratas parecem mais fracos no que tange a política internacional que os republicanos. Talvez ainda sintam o “trauma” do governo Jimmy Carter. E Barak Obama embora não seja nem de longe um pacifista – basta lembrar o que disse o lingüista Noam Chomsk no início da campanha pela candidatura democrata: “Obama e Hillary travão uma disputa particular para saber quem bombardeará primeiro o Paquistão” – passa a imagem de mediador e tolerante em contraste com a imagem de McCain, um herói de guerra.

Um conflito militar na América do Sul que acabasse por depor os indesejáveis Chávez e Correa – Venezuela e Equador são os únicos países sul-americanas membros da O.P.E.P. –, uma guerra civil na Bolívia que deixasse Moralles sem força política – e econômica - e um terceiro mandato para Uribe, enfraqueceria a disposição dos mais diversos movimentos anti-imperialistas na região.

Agora outra coisa que me preocupa nesses acontecimentos do último fim de semana, onde três países sul-americanos – tendo dois, Colômbia e Venezuela fronteira com o Brasil – é a omissão do presidente Lula. Omissão essa que não condiz com o perfil de um Estado que postula assento permanente no Conselho de Segurança da O.N.U.


Para se entender mais um pouco sobre as motivações da Colômbia em atacar o Equador com o aval dos EE.UU. acesse:

http://www.viomundo.com.br/denuncias/reuniao-da-oea-colombia-pode-usar-decisoes-da-onu-sobre-alqaeda-para-justificar-invasao-do-equador/

Já quem quiser saber quem é de fato Álvaro Uribe e suas relações com o narcotráfico,tenho como sugestão uma excelente matéria de Josephe Contreras e Steven Ambrus para a revista estadunidense Newsweek. Matéria baseada em documentos do Departamento de Defesa dos EE.UU.

http://www.newsweek.com/id/54793










enviada por hudson






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