blog do Hudson


01/02/2008 18:39

Para 2010

Num dos espaços que mais considero e admiro na grande rede, espaço que freqüento com assiduidade diária e recomendo a meus leitores, estava essa semana a seguinte pergunta aos internautas:

Qual o melhor candidato da esquerda para as eleições presidenciais de 2010? Dilma Roussef, Ciro Gomes, Heloisa Helena ou algum outro nome?

O site em questão trata-se da Carta Maior, um dos “últimos moicanos” no que tange o debate por um novo mundo possível e realizável. Um espaço democrático e com pluralidade de opiniões. A pergunta estava no blog do Emir, este hospedado dentro da revista virtual. Quanto ao Professor Emir Sader de minha parte só posso tecer elogios, pois é dos maiores sociólogos brasileiros em atividade – se não for o maior e isto é opinião minha como sociólogo – lúcido e coerente em suas posições. Acadêmico conhecido e respeitado em todo o meio. Transparente em suas análises e autor de grandes teses. Viu vários de seus livros publicados – muitos dos quais tive oportunidade de ler e na maioria das vezes concordar com seu ponto de vista e comungar de seus ideais. Não vejo nada de depreciativo em fazer tal pesquisa. Entretanto alguns fatos merecem ser analisados antes de chancelar este ou aquele como candidato representante da esquerda. Ou então pelo menos definirmos de que esquerda estamos falando. Ou que projeto de esquerda essas figuras propõem para o Brasil.

Antes de comentar sobre as três opções dadas previamente, gostaria apenas de frisar que sinto pelos infortúnios atravessados por Olívio Dutra nos últimos tempos. Um racha interno no PT gaúcho em 2002, quando era governador do Rio Grande do Sul e concorria dentro do partido a postulação de uma segunda candidatura. A demissão do Minisério das Cidades – um dos melhores projetos dos primeiros quatro anos do governo Lula –, para que fosse acomodado um afilhado de "Severino Cavalcanti". E a campanha orquestrada de forma nefasta pela direita retrógrada e reacionária gaúcha no pleito de 2006, especialmente no segundo turno. Esse sim seria um grande nome para a esquerda brasileira.

Não consigo enxergar em Ciro Gomes nenhuma virtude ou vicio da esquerda. Ciro é notadamente um político liberal com pensamento econômico liberal. Muitas vezes me parece um keneysiano, outras pupilo de Adam Smith. Basta puxar um pouco a memória e relembrar sua caminhada política antes de se tornar um “esquerdista”. Sendo do mesmo grupo político de Tasso Jereissati foi governador do Ceará e antes do término do mandato foi convocado por Itamar Franco e FHC, durante a “Crise da Parabólica”, para substituir Rubens Ricupero no Ministério da Fazenda. Não vou gastar meu tempo falando sobre o que significou naquele momento sua passagem pela Esplanada dos Ministérios. Apenas citarei que nessa passagem participou de forma ativa do engodo que foi o plano real. Engodo perpetrado por Itamar, FHC e o FMI – cada um com seus respectivos interesses. O projeto de Ciro era se tornar um político de destaque nacional e dali quatro anos concorrer dentro do PSDB, seu partido naquela época, ao Planalto com apoio de FHC. Mas este, como todos nós sabemos, optou por dar um golpe branco e se tornou FF.HH.

Ciro em 1997 se filia ao PPS – do liqüidacionista Roberto Freire que usurpando de boa parte do aparato do antigo PCB em 1992 mudou o nome do Partidão e converteu seus seguidores, os dele Robeto Freire, do socialismo cientifico à religião do onipresente “deus” Mercado. Disputou as eleições de 1998 vestindo a candidatura à presidência da República pelo partido dos liqüiacionistas e se apresentando como dissidência do governo tucano, nunca como seu opositor. Sabia da tarefa árdua que teria pela frente enfrentando de uma só vez FHC candidato à reeleição e Lula já na sua terceira tentativa de chegada ao Palácio do Planalto e como antes contando com o apoio dos mais variados movimentos sociais e populares. Mesmo com tais obstáculos o seu discurso de dissidente grudou numa parcela da população – notadamente da classe média – e saiu das urnas com cerca de 10% dos votos se cacifando para uma nova tentativa em 2002.

Sendo assim lançou-se outra vez dali quatro anos, dessa feita conduzindo uma aliança que ia do PDT de Leonel Brizola – seu vice era o pedetista Paulo Pereira da Silva, líder sindical ligado à Força Sindical, dois dignos representantes, dirigente e entidade, do sindicalismo pelego – passava novamente pelos liqüidacionistas – dizia-se a época que até Paulo Maluf, caso quisesse teria lugar no PPS – e ia até o PFL, a estratégia de campanha foi entregue a Jorge Bournhausen. Durante a campanha Ciro foi até a Bahia, literalmente, beijar a mão de ACM – apenas para contextualizar o PFL dera um tempo em sua aliança com o PSDB por conta do caso “Lunus”. Caso esse que detonou a candidatura de Roseana Sarney.

Os votos minguaram e Ciro findara a disputa num opaco quarto lugar. Na configuração para o segundo turno, então um embate entre Serra e Lula, Ciro subiu no mesmo palanque que o petista – embora mantivesse a aliança com Jereissati no seu estado natal – e após a vitória desse se tornou ministro da Integração Nacional, pasta que ocupou durante todo o primeiro mandato de Lula.

Hoje é deputado pelo PSB – rompeu com o PPS em 2005, durante a crise mensalão – espera ser indicado por Lula como dono da candidatura viável dentro da base de apoio ao governo. Tem buscado o equilíbrio entre um discurso independente, ora cravando lugar junto a oposição mais moderada, ora defendendo o governo.

No comentário de um internauta no blog do Emir, Ciro Gomes é um “neo-coronel”.

Heloísa Helena é de esquerda? Pode até ser, mas seu fundamentalismo religioso e seu gosto por um discurso udenista baseado na moral, ética e outros valores burgueses depõem contra ela. A ex-senadora demonstra um desprezo incrível por qualquer posição que não seja a sua. Em suma Heloísa Helena mostra uma vocação para o personalismo. No momento parece disposta a criar uma cisão dentro de seu próprio partido por teimar em contrariar uma resolução do PSOL sobre o aborto. Resolução essa votada em convenção nacional, onde a posição de Heloísa Helena contra o aborto foi fragorosamente derrotada. Também tem o costume de fazer, baseada naquilo que ela entende por esquerda do século XXI, severas críticas à movimentos de esquerda na América Latina.

A bandeira da moral, ética e outros tantos valores burgueses levantados pela alagoana a torna uma espécie de Carlos Lacerda de saias nos anos 2000.Valente denunciadora da direita e dos seus vícios, não se enrubesceu ao pousar de braços dados com fariseus dessa mesma direita, como Arthur Virgílio, durante o ápice da crise do mensalão.

Guiou o PSOL na cruzada contra a CPMF mesmo sabendo que esse imposto doía quase que somente no bolso da burguesia e novamente não teve pudor de estar ao lado de tucanos e demos.

Quanto à terceira opção, Dilma Roussef, é entre os três o nome mais preparado no que diz respeito a parte administrativa, ou pelo menos é o que o governo tenta passar. Entretanto politicamente não sei responder se é tão preparada assim e se ideologicamente se encontra no espectro de esquerda – embora no passado tenha participado de movimentos de esquerda, inclusive movimentos armados. O governo tem gastado muita lábia para mostrar Dilma como uma grande administradora de recursos públicos e grande negociadora com a iniciativa privada. Olha que, para o PIG estar abrindo espaço para isso, é porque o governo deve estar realmente gastando muita lábia, ou publicidade, quem sabe?

Ainda é cedo para afirmar se uma candidatura da Ministra-chefe do Gabinete Civil é ou não de esquerda. Tudo vai depender de que apoio terá dentro do PT e qual será o programa de governo que o partido adotará para a próxima disputa nacional. Se será continuação do modelo neo-liberal concebido no governo Sarney e Collor e que teve mais ou menos energia, dependendo do momento, mas que continuou e continua vivo nos governos Itamar, FF.HH. e Lula? Ou se será um programa mais voltado para uma democracia popular como o PT já teve num passado nem tão remoto? Ficam essas dúvidas e com elas a se Dilma será ou não uma candidata de esquerda.

Logicamente que qualquer um dos três será considerado de esquerda se comparamos ao que apresentará a dupla PSDB-Demo – estejam esses dois juntos ou não no primeiro turno – em 2010. Independente de quem for o presidenciável e do tom a ser adotado. Seja um tom mais radical – José Serra – ou um tom mais conciliador – Aécio Neves.

Na dúvida se Dilma e Heloisa Helena são de esquerda – me parece claro que Ciro definitivamente não o é – e na dificuldade de Dutra surge outro nome. O do governador do Paraná, o censurado pela Justiça e pelo PIG, Roberto Requião. Embora não se trate de um socialista clássico – é na sua própria definição um sartreano –, traz consigo algumas bandeiras simpáticas aos movimentos sociais e possui compreensões parecidas com as de Celso Furtado e dos nacional-desenvolvimentistas em relação à superação do subdesenvolvimento, ao papel das organizações sociais e quanto à função do Estado nacional e seu papel como agente integrador.

Portanto como marxista e olhando de forma estratégica, sabendo que na atual conjuntura dificilmente um projeto socialista autêntico conseguirá se impor à curto prazo, vejo em Requião uma das poucas esperanças de contraponto ao neo-liberalismo ao qual o governo Lula segue amarrado.

Para quem quiser dar sua opinião no blog do Emir, eis o link:

http://www.cartamaior.com.br/templates/blogMostrar.cfm?blog_id=1&alterarHomeAtual

enviada por hudson






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