blog do Hudson


08/01/2008 17:32

ECOS ORIUNDOS DOS POROES DA DITADURA

Mais uma vez ecos oriundos dos porões da Ditadura, ao qual o país foi condenado por longos 21 anos, voltam a soar em nossos ouvidos. Tristemente após terem surrupiado o poder e mutilado os movimentos sociais. Terem cassado, perseguido, torturado e trucidado milhares de brasileiros, para que então enfim, já sem condições política ou moral de continuarem no poder entregá-lo aos civis – não sem antes tutelaram o governo, Sarney, que por si só já representava o atraso, as oligarquias e os interesses do capital nacional subserviente ao grande capital internacional –. Isso tudo ainda não bastou para alguns setores das FF.AA.

Alguns militares e políticos que durante o nefasto período de 1964-1989, tiverem papel de destaque ainda esbravejam quando se toca em assuntos para eles delicados como a guerrilha do Araguaia – onde estão os documentos sobre o massacre comandado pelos açougueiros enlouquecidos e famintos por sangue? – a bomba do Riocentro – 27 anos passados e não se sabe quem são os responsáveis!!! Ou a participação dos ditadores de plantão e o seu governo com a ajuda da CIA na Operação Condor. Para esses setores da sociedade não basta a impunidade da qual gozam. Muito mais que isso, seu desejo é ocultar e se possível inverter a História para que sejam tratados como heróis da pátria. Esses abutres na falta da censura imposta pelas baionetas e botinas buscam subverter a opinião pública através de mentiras deslavadas publicadas em nossos jornalões.

Ano passado enquanto a comissão dos desaparecidos e outras vítimas da ditadura militar do Ministério da Justiça concedia à família do capitão Carlos Lamarca, “assassinado” pelo regime que se instalou no país em 1964, uma pensão equivalente ao soldo de general e outras indenizações, além de promover postumamente o capitão a coronel, não foram poucas as declarações de setores das FF.AA. a protestar. Ressoando esse protesto até mesmo entre deputados e senadores. Entre os senadores, Gerson Camata do Espírito Santo, numa mescla entre ataque de histeria e saudosismo dos bons tempos – para ele – de mando e desmando dos militares, pronunciou um virulento ataque à figura do capitão Lamarca. Lamarca já entrou para a história do Brasil como um dos vultos da luta contra a Ditadura Militar. Já o senador Gerson Camata, que desde o início da década de 1980 é filiado ao PMDB, durante as décadas de 60 e 70 foi vereador, deputado estadual e federal pela Arena, o partido do sim senhor general.

Outro fato que no último ano causou alarde nos ciclos militares foi o lançamento do livro-relatório "Direito à Memória e à Verdade", com o resultado oficial de pesquisas sobre a repressão a adversários políticos da ditadura militar entre 1961 e 1988, que relata os casos de 479 mortos e desaparecidos no período. O Clube Militar do Rio de Janeiro levou a público uma nota na qual, além de não concordar coma versão contida no livro, ainda nos presenteia com a seguinte pérola: o general Enzo Martins Peri, diz que “fatos históricos têm diferentes interpretações, dependendo da ótica de seus protagonistas”. E mais “... Segundo o militar, pôr o assunto em debate agora revela retrocesso à paz e à harmonia nacionais, já alcançadas”. Além disso, Peri defende a lei da Anistia concedida aos militares. “A Lei da Anistia, por ser parâmetro de conciliação, produziu a indispensável concórdia de toda a sociedade”.

Sendo assim com a Lei da Anistia de final da década de 1970, os beneplácitos senhores da nação enfim deixaram que indivíduos, “subversivos e perigosos”, oriundos de movimentos sociais e muitos com mandato popular, retornassem ao Brasil após um breve exílio de quase década e meia, enquanto eles também passavam a gozar da mesma anistia. Pois os crimes cometidos por eles durante o período era igualmente anistiado e os corpos dos desaparecidos eram entregues ao esquecimento. A dor e a busca pela verdade por parte dos familiares dos perseguidos e assassinados passavam a não ter valor algum, pois a lógica da anistia impedia tal sentimento e condenava a verdade à nunca ser revelada.

Agora esse comecinho de 2008 nos traz a Justiça italiana decretando a prisão de 13 brasileiros acusados de participação no desaparecimento e morte de Horácio Domingos Campiglia e Lorenzo Ismael Viñas. Ambos ítalo-argentinos presos no Brasil em março de 1980 e logo após entregues aos militares argentinos. O caso faz parte da famosa Operação Condor que envolveu as ditaduras militares do Cone Sul – além de Brasil e Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile e Bolívia.

Quando a Justiça italiana decretou a prisão eis que novamente surgem os ecos dos porões da Ditadura. O general-de-divisão da reserva Agnaldo Del Nero Augusto foi o primeiro a dar declarações pró-ditadura. Em entrevista concedida ao Estadão argumentou que: “A gente não matava. Prendia e entregava. Não há crime nisso.” Santa cara-de pau. É necessário muito cinismo subestimação da inteligência humana.

Depois aparece o ex-ministro e general da reserva Jarbas Passarinho na Folha de S. Paulo para repetir a cantilena: "Quando a pessoa queria entrar no Brasil, se não fosse clandestinamente, se o nome dela estivesse nessa lista*, era impedida e voltava para o país de origem. Nós prendíamos e mandávamos de volta, onde ela ia ser julgada. Isso não é crime".

Pois é, companheiros, parece que os militares (alguns) depois de terem outorgado para si o titulo de heróis da pátria e distorcido durante anos a História – nos livros de História impressos durante o estado de exceção, inclusive nos quais estudei quando criança, o GOLPE MILITAR de “1° de abril de 1964” aparece como Revolução Democrática de Março – agora que não possuem mais Dops e nem Dói-Codi tentam desesperadamente através do cinismo e da negação maquiar os crimes que cometeram.

* Lista de procurados por crimes políticos pelos governos dos países envolvidos na Operação Condor.

enviada por hudson






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